terça-feira, agosto 25, 2026
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Retórica da confrontação que isola a Guiné-Bissau

As sucessivas declarações hostis das autoridades que exercem o poder contra países amigos, parceiros internacionais e vozes críticas constituem um grave erro político. Num contexto de crise constitucional e institucional, a Guiné-Bissau precisa de moderação, diálogo e abertura ao escrutínio, não de uma retórica que comprometa a sua credibilidade e os interesses do seu povo.
As palavras de quem exerce o poder nunca são neutras. Podem unir ou dividir, inspirar confiança ou alimentar receios. Por isso, a crescente escalada de ataques verbais contra países amigos, parceiros internacionais e vozes críticas da sociedade guineense deve preocupar todos os cidadãos. Não se trata apenas de uma questão de estilo político; trata-se de uma opção cujas consequências podem comprometer a estabilidade, a credibilidade internacional e o futuro da Guiné-Bissau.
Num Estado democrático, a crítica não constitui uma afronta ao poder, mas um instrumento essencial de fiscalização e responsabilização. Governar implica aceitar o contraditório, ouvir opiniões divergentes e responder com argumentos. Quando o diálogo é substituído pela hostilidade e o insulto ocupa o lugar da argumentação, não é apenas a imagem do Governo que sai fragilizada; é a própria democracia que perde terreno.
É particularmente preocupante que esta retórica tenha como destinatários países amigos e parceiros internacionais que, durante décadas, acompanharam a Guiné-Bissau nos seus momentos mais difíceis, apoiando processos eleitorais, reformas institucionais e programas de desenvolvimento. Discordar das suas posições é um direito soberano. Transformar divergências diplomáticas numa política permanente de confrontação, porém, só contribui para enfraquecer a posição do país.
Também importa reconhecer o contexto em que a Guiné-Bissau se encontra. O país atravessa uma profunda crise constitucional e institucional, na sequência dos acontecimentos de 26 de novembro de 2025, anunciados pelos militares como um “golpe de Estado consumado”. É inegável que esta situação de anormalidade constitucional exige prudência, sentido de Estado e um firme compromisso com a reposição da normalidade democrática. Em momentos como este, responder às críticas com agressividade apenas aprofunda a crise de confiança e aumenta o risco de isolamento internacional.
As sucessivas declarações agressivas dirigidas a parceiros internacionais podem prejudicar gravemente a Guiné-Bissau. A confiança entre Estados constrói-se com respeito, previsibilidade e diálogo. Quando se escolhe o insulto em vez da argumentação, quem acaba por suportar as consequências é o povo guineense, sobretudo os jovens e as futuras gerações, que poderão herdar um país menos credível, mais isolado e com menores oportunidades de desenvolvimento.
Importa recordar que nenhum Estado exerce hoje uma soberania absoluta. Todos os países que integram as Nações Unidas, a União Africana, a CEDEAO ou a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa aceitaram, livremente, compromissos comuns em matéria de democracia, Estado de direito e direitos humanos. Por isso, ninguém deve invocar a soberania nacional para desvalorizar estes princípios. A democracia, o Estado de direito e os direitos humanos são valores universais e obrigações livremente assumidas pela própria Guiné-Bissau.
A verdadeira soberania afirma-se através de instituições credíveis, do respeito pela Constituição, da independência da justiça, de eleições livres e da proteção das liberdades fundamentais. Um Estado conquista respeito não quando rejeita todas as críticas, mas quando demonstra maturidade para as ouvir, responder-lhes com serenidade e fortalecer as suas instituições.
Este é, por isso, o momento de exercer moderação e sentido de Estado. A Guiné-Bissau precisa de construir pontes, não de erguer muros. Precisa de uma liderança que privilegie o diálogo, preserve as relações com os seus parceiros e coloque os interesses permanentes da Nação acima das conveniências políticas do momento.
Enquanto cidadão comprometido com a defesa da democracia, do Estado de direito e dos direitos humanos, deixo um veemente apelo a quem exerce o poder: moderem o discurso, cultivem a tolerância e reencontrem o caminho do diálogo. Não confundam escrutínio com hostilidade, nem transformem parceiros em adversários.
Nenhum governante permanece para sempre. Mas as consequências das suas palavras podem perdurar durante muitos anos. Esse é um preço demasiado elevado para um povo que continua a aspirar à estabilidade, à paz, ao desenvolvimento e à consolidação da democracia.
Por Bubacar Turé, Ativista dos Direitos Humanos
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