domingo, agosto 9, 2026
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Sissoco Embaló acusado de manipular generais e dividir comunidade balanta

O director de campanha de Fernando Dias da Costa afirmou, a 13 de Julho, em Portugal, que o poder instalado na Guiné-Bissau pretende, a todo o custo, impor ao povo uma vontade que lhe teria sido recusada nas urnas.

Numa conferência de imprensa convocada para reagir à detenção de Domingos Simões Pereira (DSP), presidente do PAIGC e da Assembleia Nacional Popular, Mário Siano Fambé declarou não ter dúvidas de que DSP está a ser perseguido devido ao seu capital político. Segundo afirmou, Simões Pereira não é responsabilizado por se ter preparado para a actividade política, mas sobretudo por ser “um político que o povo ouve”.

Ao abordar a tomada do poder pelos militares em 26 de Novembro de 2025, Mário Fambé dirigiu duras críticas a Horta Inta-a, Presidente da Transição, e a Tomás Djassi, acusando ambos de estarem a ser “instrumentalizados por Umaro Sissoco Embaló”. De acordo com o dirigente político, o antigo Presidente perdeu as eleições, mas “indicou dois balantas” para servirem de marionetas.

Nas suas declarações, Fambé afirmou ainda que Horta Inta-a e Tomás Djassi, alegadamente instrumentalizados por Sissoco Embaló, procuram instalar um conflito no seio da comunidade balanta.

Durante a conferência de imprensa, o político manifestou repetidamente a sua incompreensão perante o papel desempenhado pelo Comando Militar. Começou por sustentar que os acontecimentos de 26 de Novembro perderam “as características de um golpe”, uma vez que os militares permitiram que “políticos rejeitados pelo povo” utilizassem o poder para retaliar contra os seus adversários.

“A detenção de Domingos Simões Pereira é uma questão meramente política. Domingos nunca alinhou com princípios golpistas. Nunca. O mal que ele tem na vida é ter-se preparado para a vida política. Só isso, mais nada. O Domingos sempre defendeu uma causa e o povo acreditou nele”, assegurou Fambé.

Mário Fambé ingressou recentemente na política, depois de uma passagem pelos quartéis. Disse que algumas das pessoas que actualmente dirigem as Forças Armadas foram, no passado, figuras que o inspiraram, mas que hoje lhe causam profunda tristeza.

“Um golpe de Estado não se dá aos partidos políticos. Dá-se contra um Governo, rompendo com as suas políticas. Infelizmente, eles permitiram que Umaro Sissoco manietasse tudo isso. Umaro Sissoco fez com que os nossos irmãos balantas entrassem nesta figura triste. Como é que eles podem aceitar que uma pessoa que entrou para os quartéis em 1992, desertou em 1994 e voltou anos depois à procura de uma carta de condução militar? Foi ali que escreveram que era general e ficou com esse título até hoje. O Sissoco quer que haja uma guerra civil neste país.”

“Há risco de conflito”

Fambé advertiu que a sociedade guineense está “a ferver” e que, caso a situação se mantenha, poderá existir o risco de uma guerra civil. Segundo explicou, o seu grupo étnico, devido a um histórico que considera negativo, viveu momentos em que algumas das suas figuras procuraram recuperar e dignificar a respectiva imagem.

“Quando JOMAV, um manjaco, foi eleito Presidente, Biaguê pediu-me para protegermos JOMAV como forma de limpar a imagem do nosso grupo étnico. Hoje, estamos a viver uma decepção total.”

O dirigente recordou que, nas últimas eleições, Fernando Dias da Costa venceu e que, na sua perspectiva, os dados eram claros. Acusou Umaro Sissoco Embaló de ter tentado pressionar M’Pabi Cabi, presidente da Comissão Nacional de Eleições, para anunciar um determinado resultado, pretensão que teria sido recusada pelo responsável eleitoral.

Segundo Mário Fambé, Umaro Sissoco Embaló, através do seu grupo, escolheu “dois balantas mais complexados”, referindo-se a Horta Inta-a e Tomás Djassi, para perturbarem o processo político através de um falso golpe de Estado.

Mário Fambé acusou ainda os dois responsáveis de renegarem as respectivas tradições para serem “islamizados” por Umaro Sissoco Embaló.

“Um balanta que negou o seu grupo étnico em favor de outro é que pode aceitar sabotar Fernando Dias. Umaro é um intriguista, corrupto, invejoso e assassino. Ele quer intrigar balantas com fulas, mas nós não vamos aceitar. Os fulas são diplomatas. Mas Umaro Sissoco quer aproveitar-se dessa característica para nos colocar uns contra os outros. Anda o tempo todo a falar de pessoas que não gostam de muçulmanos. Mas são intrigas. Sei do que falo”, denunciou.

“DSP preparou-se para a política e o povo aceita-o”

Apesar do que classificou como características tribalistas de Sissoco Embaló, Fambé afirmou não compreender como os militares balantas permitiram que o antigo Presidente os instrumentalizasse.

“Vejam aquilo que Tomás Djassi fez. Vai ao Conselho Nacional de Transição para substituir a Assembleia Nacional Popular e entregar o poder à Plataforma Republicana, que apoiou Umaro Sissoco Embaló, a quem o povo nunca aceitou. Por exemplo, o primeiro-ministro escolhido pelos militares é director de campanha de Sissoco Embaló. Estão a correr com o povo através das armas do próprio povo.”

Falando de Domingos Simões Pereira, Mário Fambé recordou que o líder do PAIGC tem sido, segundo a sua leitura, uma vítima recorrente da perseguição de Umaro Sissoco Embaló, incluindo impedimentos de viagem e episódios de humilhação em diferentes espaços.

“Domingos foi impedido de se candidatar e foi apoiar Fernando Dias. Está detido por isso. Por ter apoiado Fernando Dias. É triste. Domingos não é culpado de ter preparado e orientado a sua vida para o sucesso.”

Mais adiante, Fambé afirmou que estaria em curso a execução de uma estratégia destinada a reconduzir Sissoco Embaló à Presidência da República.

“Estão a desarrumar a Constituição para trazer Sissoco. Estamos aqui atentos. Se é esse o vosso objectivo, estamos preparados e ficamos à vossa espera.”

Perante uma assistência constituída essencialmente por dirigentes do PRS, Mário Fambé advertiu os actuais detentores do poder na Guiné-Bissau para que cessem os abusos, lembrando que o poder poderá, no futuro, passar para outras mãos.

“Assistimos ao poder de Khadafi, mas, quando o seu poder acabou, foi retirado de um buraco. O que está aqui a acontecer é a prática de actos que deixam os balantas em maus lençóis. E isso não pode acontecer.”

O dirigente aproveitou igualmente a ocasião para enviar uma mensagem de solidariedade aos que permanecem na Guiné-Bissau e pediu-lhes resiliência.

“Isso pode durar, mas vamos ganhar esta guerra. Vamos ganhar porque estamos ao lado da verdade. E, quando isso acontecer, vamos mostrar-lhes como é que se governa”, avisou.

“Sissoco mostra droga aos aliados para os manter amarrados”

Mário Fambé acusou Tomás Djassi de agir como membro da Plataforma Republicana, argumentando que o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas está a desempenhar um papel essencialmente político.

“Todos eles são insultados por Umaro Sissoco Embaló. Sempre que alguém é denunciado, ele insulta até as mães das pessoas. Depois, diz que os fulas não gostam dos balantas porque mataram Samba, que os Papéis não gostam dos balantas porque mataram Nino, e assim sucessivamente. O mais triste é que os balantas que garantem a segurança de Sissoco aplaudem estas afirmações intriguistas.”

Relativamente à questão da corrupção, Fambé alegou que uma das formas de suborno utilizadas por Sissoco Embaló consistiria em envolver determinadas pessoas em negócios relacionados com droga, tornando-as posteriormente vulneráveis a ameaças e chantagens.

“O Sissoco nunca te dá dinheiro. Dá-te droga proveniente dos seus negócios. Mostra-te a droga e depois ameaça entregar-te à DEA (Drug Enforcement Administration). É assim que Sissoco prende e intriga toda esta gente. Por isso, não conseguem abandonar o seu barco.”

“Estão amarrados. Mostrou-lhes droga e cada um começou a construir a sua mansão. De onde saiu o dinheiro? Sissoco, sabendo disso, avisa-os de que, se sair do poder, deixarão de ter dinheiro. Hoje, as nossas finanças estão a financiar as movimentações de Sissoco Embaló com Macky Sall, na procura do cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Isso não podemos permitir!”

Mário Fambé classificou Umaro Sissoco Embaló como um “corrupto-mor” e acusou-o de ter tentado obrigá-lo a desviar verbas provenientes da União Europeia para finalidades que não lhe teriam sido devidamente explicadas.

“Na altura, eu era ministro das Pescas. Nuno e Soares Sambú foram ao meu gabinete pedir-me para retirar quatro milhões de dólares da União Europeia para fins que nem compreendi. Recusei. Tiraram-me do Governo e nomearam outra pessoa. Quando saí, mandaram fazer uma auditoria para verificar o que eu tinha feito. Mas há muito que conheço a estratégia deles. Se tivesse retirado os quatro milhões, hoje estaria preso nas mãos de Sissoco, como está muita gente.”

Patentes alegadamente atribuídas de forma irregular

Outra questão abordada por Mário Fambé esteve relacionada com a atribuição de patentes militares. Depois de recordar que Horta Inta-a afirmou não ser corrupto, o dirigente manifestou estranheza pelo facto de o Presidente da Transição ter reclamado a patente de general de quatro estrelas depois de assumir as novas funções.

“A nossa lei militar é clara. Quem deve ter quatro estrelas é o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas. Antes, o próprio CEMGFA era coronel. Mas ele foi pedir uma patente e o país passou agora a ter três generais de quatro estrelas. Outra questão não menos importante é que as patentes são conquistadas nos quartéis, e não na Presidência, como Horta está a fazer.”

“Aconteceu aqui uma aberração. Temos dois generais no activo. Quem é que manda em quem? É precisamente isso que queremos evitar.”

Mantendo Umaro Sissoco Embaló no centro das suas acusações, Mário Fambé alegou que o antigo Presidente, mesmo afastado formalmente do poder, estaria relacionado com o assalto e a morte de Vigário Balanta. Responsabilizou, contudo, os actuais dirigentes da transição por não impedirem tais acontecimentos.

“Mas sabem quem é responsável? Não é apenas Sissoco. É também quem está a exercer o poder. Horta Inta-a disse que não é corrupto, mas o seu filho tem menos de um ano nos quartéis e já carrega a patente de major. Temos militares que entraram para a tropa em 1984 e ainda não foram promovidos. Portanto, o que está nos quartéis não é uma reserva moral. É um partido político.”

Foi neste contexto que se referiu a uma eventual interferência do Chefe do Estado-Maior da Armada senegalesa, que, segundo afirmou, terá telefonado a Tomás Djassi, CEMGFA guineense, para lhe pedir que não interviesse em assuntos de natureza jurídica.

“Meteram Domingos Simões Pereira numa cela sem as mínimas condições, apenas para o matar. Depois, Ilídio vai a Gabú inaugurar o Movimento Fuladu. Portanto, existe toda uma estratégia de Sissoco para colocar toda a gente em conflito, enquanto os nossos irmãos balantas fingem não perceber”, declarou.

Mário Fambé recordou ainda anteriores denúncias relativas a uma alegada tentativa de golpe de Estado supostamente preparada por Sissoco Embaló e denunciada por Braima Camará. Revelou que, a pedido do antigo Presidente da República, uma pessoa o teria contactado para o pressionar e afastar do assunto.

 

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