terça-feira, setembro 8, 2026
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Acidente, críticas e investigação: Cabo Verde chora das maiores tragédias

Vinte e cinco pessoas morreram naquele que será uma dos acidentes mais graves da história de Cabo Verde. Às mensagens de pesar e solidariedade, juntam-se críticas à televisão cabo-verdiana que não noticiou o acidente. Tudo o que se sabe sobre a queda do autocarro, na ilha do Fogo.

Cabo Verde “viveu uma das noites mais dolorosas da sua história” no sábado, quando um autocarro com dezenas de pessoas a bordo se despistou e caiu de uma ravina. Vinte e cinco pessoas morreram, a maioria das quais crianças e jovens.

A notícia deixou de luto não só Cabo Verde como toda a comunidade internacional, sobretudo pelos contornos da tragédia: um dia que se previa ser de passeio, acabou de luto.

Algumas das vítimas estão ainda hospitalizadas em estado grave, e outras já começaram a ser sepultadas.

A história não se faz, contudo, sem haver criticas sobretudo à forma como o incidente foi tratado pela comunicação social local.

Maior acidente da história de Cabo Verde

Era suposto ser um dia diferente. O condutor do autocarro era Henrique Cardoso, conhecido na ilha pelo nome de Djedjino, e todos os dias levava as crianças às escolas dos agrupamentos do Curral Grande e de Ponta Verde. No final ou antes do início do ano letivo, tinha a tradição de levar as crianças num passeio por caminhos diferentes do habitual.

Este ano, a tradição não acabou bem. “Tinham ido a Chã das Caldeiras para passar um dia de convívio, amizade e alegria, levando consigo memórias que deveriam ser apenas o início de muitas outras”, divulga o Onda Kriolou, meio de divulgação cabo-verdiano nas suas redes sociais.

Tudo aponta para que um problema num dos pneus da viatura esteja na origem do despiste, tendo acabado por cair de uma altura de 30 metros. Morreram 25 pessoas, havendo ainda 18 feridos, quatro dos quais em estado grave

Dois dias de luto e corpos já sepultados

Na sequência do acidente, o município declarou dois dias de luto municipal e anunciou uma reunião extraordinária para deliberar sobre os apoios aos familiares das vítimas.

Horas depois da tragédia, alguns dos corpos começaram rapidamente a ser sepultados. Segundo o site A Nação, sete dos corpos foram enterrados durante a madrugada de domingo, 6 de setembro, “num ambiente de profunda comoção e dor que mobilizou familiares e centenas de populares”, no Cemitério de São Lourenço. A decisão aconteceu por indicação da Delegacia de Saúde e a pedido das famílias.

Djidjino, Mantoni, Tereza, Geovany, Fabrício, Gutu e Djeury são os nomes das crianças cujos familiares e amigos já se despediram. Outros corpos estão ainda à espera para serem identificados.

A decisão de realizar alguns dos funerais nas primeiras horas da manhã prendeu-se, segundo este jornal, com procedimentos logísticos e pedidos das próprias famílias enlutadas e pode estar relacionado com o estado em que os corpos se encontravam.

Apoio internacional. “Portugal está convosco”

A tragédia, considerada já a maior tragédia rodoviária da história de Cabo Verde, tocou a muitos e as mensagens de pesar vão para lá das fronteiras da ilha.

O presidente e o primeiro-ministro cabo-verdianos deslocaram-se de imediato para ilha do Fogo para “manifestar pessoalmente a sua solidariedade às famílias e comunidades afetadas, acompanhar de perto a situação e inteirar-se das medidas de apoio que estão a ser mobilizadas pelas autoridades competentes”.

De Portugal, António José Seguro fez saber que apresentou as condolências em nome “pessoal e do do povo português“. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, manifestou a sua “profunda consternação” pelo acidente e garantiu que “Portugal está convosco”.

O presidente da Assembleia da República também não escondeu a “imensa tristeza de uma tristeza que definiu como brutal e “injusta”. Já Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, expressou ainda “a solidariedade de Portugal para com o povo irmão e autoridades cabo-verdianas”.

Cabo-verdianos criticam comunicação social

A tragédia não está isenta de alguma polémica, neste caso pela forma como foi tratada pela comunicação social. Nas redes sociais, a população local lamenta a forma como não houve qualquer referência ao acidente no principal noticiário do país, tendo muitos sabido do sucedido apelas pela televisão portuguesa. As criticas visam a TVC, o canal público e mais antigo do país.

Muitos cabo-verdianos, incluindo a jornalista Rosana Almeida, defenderam que a estação pública deveria ter enviado uma equipa de reforço para a ilha do Fogo, de forma a assegurar uma cobertura jornalística à dimensão do acidente.

Investigação e apoios

O governo cabo-verdiano anunciou entretanto uma análise “séria e profunda” às circunstâncias do acidente, incluindo as condições de construção, avaliação e fiscalização das estradas.

“É evidente que a construção de estradas nos interpela a todos. Conhecemos o processo e sabemos como as coisas acontecem nesta terra, sabemos qual é o lugar da avaliação e da fiscalização na sociedade cabo-verdiana. O que falta é agir e tomar medidas concretas e vamos fazê-lo”, afirmou o primeiro-ministro, Francisco Carvalho, durante a deslocação à ilha do Fogo.

A par disso, o governo cabo-verdiano anunciou que vai pagar os funerais das 25 vítimas do despiste do autocarro, bem como as deslocações para a ilha das famílias afetadas pelo acidente ocorrido no sábado

“Temos de dar o maior apoio possível nos próximos dias”, afirmou o ministro da saúde cabo-verdiano, Lúcio Miranda, acrescentando que o governo está a trabalhar com a Câmara Municipal de São Filipe para identificar as necessidades das famílias.

O acidente de sábado, saliente-se, é o acidente “com maior número de vítimas mortais registado num único dia em Cabo Verde”.

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