As informações sobre o possível regresso de Umaro Sissoco Embaló à Guiné-Bissau não são, segundo os círculos próximos do antigo Presidente, simples rumores nem fake news. Nesse meio, a intenção é apresentada como uma decisão assumida, com preparativos minuciosos e uma data em perspetiva. Falta, contudo, ultrapassar as resistências de quem considera um regresso inoportuno. O dia 4 de outubro poderá ser o “dia D” de Embaló, com uma receção que se pretende apoteótica. A notícia já circula nas estruturas do poder, mas o entusiasmo está longe de ser unânime. A avaliar pelas reservas entre antigos aliados, será mais fácil marcar a chegada do que afinar o coro das boas-vindas.
O Governo ainda não assumiu uma posição pública, embora se admita que o assunto venha a ser analisado nas próximas reuniões do Conselho de Ministros. A título particular, alguns membros do Executivo terão aconselhado o antigo chefe de Estado a reconsiderar, por entenderem que o regresso seria prematuro. Embaló, porém, não terá acolhido a recomendação e manterá a determinação de chegar ao país naquela data. A concretizar-se, a iniciativa poderá aprofundar as divisões entre os seus antigos aliados, tanto políticos como militares. O acolhimento triunfal projetado pelos promotores do regresso convive, assim, com uma realidade menos festiva nos bastidores. Nos quartéis, o quadro não é mais esclarecedor. Tal como no Executivo, falta uma posição oficial. Permanece sobretudo por conhecer o entendimento de Horta Inta-A, Presidente de Transição, apontado por alguns setores como o único que ainda não terá manifestado a sua posição. Entre preparativos, reservas e silêncios, a anunciada apoteose continua à espera de saber com quem pode contar.
O primeiro-ministro de Transição, Ilídio Vieira Té, também não se pronunciou publicamente sobre a eventual chegada de Sissoco Embaló, nem sobre a alegada liderança do PPG, formação política ainda em fase de arranque. Uma fonte próxima do governante assegura que Vieira Té tem outras prioridades e não está disponível para alimentar discussões suscetíveis de desestabilizar o país. A sua posição será conhecida “no devido momento”, afirmou a mesma fonte, acrescentando que o chefe do Executivo permanece concentrado no cumprimento das diretrizes da Carta de Transição Política.
Ex-aliados de peso, são contra
A perspetiva do regresso também está a provocar reações críticas entre os apoiantes de Embaló. A página “Mistida de Pubis”, que se tem posicionado a favor do MADEM-G15 e do antigo Presidente, demarcou-se da iniciativa numa publicação de 13 de setembro, sob o título “quem com ferro mata, com ferro morre”. O provérbio dispensa grandes traduções políticas. O texto critica a estratégia de Sissoco Embaló e a forma como se terá afastado dos seus aliados. Na leitura da página, “forçar o regresso de Sissoco Embaló” visa recuperar o espaço político que estará a perder, à medida que antigos companheiros de percurso, entretanto descartados, conquistam autonomia. Sob o subtítulo “o problema de Sissoco Embaló”, a publicação analisa os recados veiculados num vídeo do blogger Delnilson Ferreira, vulgo Doka Internacional. Se corresponderem efetivamente às posições ou intenções do antigo chefe de Estado, sustenta, poderão traduzir algo mais profundo do que a vontade de regressar ao país, nomeadamente a perceção de que deixou de controlar aliados e espaços políticos antes próximos. “Esse seria o verdadeiro problema. Porque uma estratégia baseada permanentemente na divisão funciona enquanto o seu autor consegue controlar as peças do tabuleiro. Quando as peças começam a adquirir autonomia, o método deixa de produzir os mesmos resultados.”
Quem não tem capital político neste momento?
A publicação identifica os sinais dessa mudança. Braima Camará dispõe do seu próprio espaço político, Ilídio Vieira Té procura construir o seu e outros protagonistas reorganizam-se, enquanto a Guiné-Bissau se prepara para uma nova disputa eleitoral. É neste cenário, argumenta, que deve ser interpretado um eventual regresso de Embaló, “não como o regresso automático de um homem ao poder, mas como a entrada de mais um protagonista num terreno político que entretanto mudou profundamente”. O tabuleiro, nesta leitura, já não obedece à mesma mão. E os antigos aliados parecem pouco inclinados a continuar no papel de peças. A “Mistida de Pubis” acrescenta uma advertência explícita, ao afirmar que “ninguém deve regressar à Guiné-Bissau com milícias”. O texto reconhece que qualquer cidadão guineense com direito legal a entrar no país deve poder fazê-lo nos termos da Constituição e das leis da República. Rejeita, porém, que essa entrada possa ocorrer na companhia de forças privadas, grupos armados ou estruturas paralelas às instituições republicanas, seja qual for o estatuto de quem regressa. “A Guiné-Bissau tem Forças Armadas. Tem forças de segurança. Tem instituições. Não precisa de milícias.” A advertência não constitui, por si só, confirmação de preparativos para a entrada de grupos armados. O próprio articulista defende que eventuais informações concretas sejam entregues às autoridades competentes e investigadas. “A violência política não pode voltar a ser instrumento de conquista ou conservação do poder”, conclui a publicação. Por enquanto, há uma data apontada, uma receção ambicionada e várias posições por esclarecer. Embaló poderá querer regressar em apoteose. Resta saber quantos dos antigos aliados estarão disponíveis para aplaudir.



