terça-feira, novembro 3, 2026
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Vítimas apresentam queixa contra os dois últimos presidentes do STJ

Um grupo de advogados, em representação de diversas vítimas do atual sistema judicial, entregou hoje (03), no Ministério Público, uma denúncia-crime contra os dois últimos presidentes do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) nomeadamente, Lima António André e Arafam Mané. Os dois dirigiram a mais alta instância judicial da Guiné-Bissau a partir de 2023 e são suspeitos de terem cometido vários crimes ao longo de cada reinado. Os denunciantes consideram existirem indícios suficientes de prática criminal, sustentando que, durante o seu mandato, “tudo foi feito à margem da lei”.

Entre os factos integrados na denúncia figuram treze tipos de crime: Obstrução à Liberdade de Escolha; Usurpação de Funções Públicas; Prevaricação; Denegação de Justiça; Peculato; Peculato de Uso; Abuso de Poder; Obstrução à Atividade Jurisdicional; Denúncia Caluniosa; Falsificação Qualificada; Dano Qualificado; Alteração de Estado de Direito; e Coação contra Órgãos Constitucionais.

Um dos advogados do grupo, que pediu o anonimato, afirmou ao UH que, em toda a sua carreira, nunca acompanhou um processo com tão elevado nível de adesão e colaboração por parte das vítimas: “São 13 crimes, e podem ser mais, pois muitos deles repetiram-se ao longo do tempo. Quando se persegue um magistrado, a gravidade torna-se outra. Existem juízes que vão provar, em instância própria, que foram privados dos seus direitos — seja por Lima André, seja por Arafam Mané. E quando isso acontece, a justiça será feita, com certeza”.

A denúncia salienta que Arafam Mané foi nomeado Vice-Presidente do STJ e do Conselho Superior da Magistratura Judicial (CSMJ) por deliberação direta do próprio conselho — e não eleito pelos seus pares, como impõem a Lei Orgânica e o Estatuto dos Magistrados Judiciais. A nomeação ocorreu pela Deliberação n.º 1/2024 do CSMJ, em conluio com o então Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló, e padece, segundo os denunciantes, de nulidade absoluta por vício de incompetência orgânica e preterição de formalidades legais.

Tanto Lima André como Arafam Mané promoveram o afastamento dos vogais da Assembleia Nacional Popular no CSMJ que não se alinhavam com a sua orientação — Marciano Indi, Hélder Henrique de Barros e Domingos Quadé — com o objetivo de instaurar um controlo político sobre o poder judicial.

Foram igualmente afastados os vogais Amadu Tidjane Djaló, Kátia Lopes e Dionísio Clementino Barnabé Ireneu Bati (Deliberação 11/CSMJ/2021), todos juízes de carreira.

A denúncia aponta ainda a alteração do regulamento eleitoral do STJ: o requisito de cinco anos na categoria de Juiz Conselheiro foi reduzido para três, de forma a permitir a candidatura de Arafam Mané, que até 2022 era Juiz Desembargador.

“Arafam Mané não é sequer o juiz mais antigo, lembram os denunciantes — os conselheiros Aimadú Sauane e Atila Djawara Morreira Ferreira são-lhe anteriores, nos termos do artigo 29.º do Estatuto”, esclareceu.

O grupo acusa também Lima André de ter escondido que fora condenado pela Secção Disciplinar do CSMJ, impedindo legalmente a sua candidatura. Aponta ainda o seu papel no afastamento de José Pedro Sambú da presidência do STJ — com apoio de milícias que ocuparam as instalações e arrombaram a porta do gabinete — e a sua ação como “estratego de bastidores” para colocar Arafam Mané no cargo.

“Lima André não reunia condições mínimas para concorrer. Foi condenado em processo com trânsito em julgado e ocultou isso. Conspirou para que Arafam Mané chegasse onde está. Se alguém deve prestar contas à justiça, é ele”, acrescentou.

Recorde-se que já em 2024 um grupo de advogados havia apresentado queixa contra Lima André, classificando a sua ação como um “assalto ao STJ”.

Ao que o UH apurou, consta ainda da denúncia uma acusação de assédio sexual: no âmbito de uma inspeção de desempenho para efeitos de promoção, uma magistrada terá sido alvo de propostas e pressões que, ao serem recusadas, resultaram numa avaliação injusta e no bloqueio da sua progressão na carreira. ” Vamos pedir ao Ministério Público que investigue todos estes factos. Os dois terão de prestar contas à justiça”, rematou.

 

A Redação

 

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