Ativista e membro da plataforma Frente Única, Sumaila Djálo, acusa a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) de “consolidar a ditadura” e de ser “inconsistente” na mediação na Guiné-Bissau.
No último fim-de-semana, a plataforma Frente Única pressionou o Senegal e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) para uma mediação “séria e justa” na longa crise política guineense.
E parece que o manifesto fez efeito. Uma delegação senegalesa, liderada pelo chefe de diplomacia do Senegal, está em Bissau, onde se reuniu com os responsáveis políticos e militares do país.
Sumaila Djálo, membro da Frente Única, acusa a CEDEAO de “consolidar a ditadura” e de ser inconsistente na mediação na Guiné-Bissau. Reivindica também a libertação de presos políticos, sugerindo sanções em caso de incumprimento.
DW África: A Frente Única, juntamente com a Rede Internacional de Solidariedade com a Guiné-Bissau, pediu à embaixada do Senegal em Londres uma mediação séria e justa da crise política guineense. Até agora não foi assim?
Sumaila Djaló (SJ): A intervenção da CEDEAO na Guiné-Bissau não é de hoje. Mas neste contexto em particular, a intervenção da CEDEAO pode ser situada nas últimas eleições de novembro de 2025, em que os seus observadores tiveram possibilidades de verificar como decorreu o processo de votação e, no fim, esses representantes da CEDEAO afirmaram ter havido condições para a conclusão do processo e a proclamação dos resultados. De lá para cá, as posições da CEDEAO têm sido inconsistentes. A CEDEAO, como que homologando um falso golpe inventado por Umaro Sissoco Embaló e militares – então leais ao seu regime – para inviabilizar este processo eleitoral, adotaram várias posições nas suas cimeiras e nas suas estruturas no sentido de validar a transição e de apelar para o retorno à normalidade constitucional sem ações consequentes. A CEDEAO é também incapaz de garantir que os resultados que afirmaram terem existido fossem proclamados.
DW África: O governo golpista aparenta ter cortado laços com Sissoco Embaló. Que força ou preponderância terá a CEDEAO junto de Bissau nestas circunstâncias?
SJ: Nós não estamos a pedir favores ao Estado senegalês, nem à CEDEAO. É a CEDEAO que escolhe o governo senegalês para mediar a crise na Guiné-Bissau e é uma organização da qual a Guiné-Bissau faz parte. Enquanto Estado-membro e enquanto povo desse Estado, o que estamos a exigir é que tanto a CEDEAO como a mediação senegalesa respeitem a vontade do povo da Guiné-Bissau expressa nas urnas. Mas, por outro lado, conduza a uma mediação justa e transparente, que para nós significa sentar-se à mesa não só com os militares golpistas, mas também com outras sensibilidades políticas existentes no país. E também exigir que os presos políticos sejam libertados porque há ordens judiciais nesse sentido. E se isto não acontecer, nós apelamos à aplicação de sanções. A CEDEAO tem todas as condições para trilhar este caminho, porque a história da Guiné-Bissau, a história recente do país, também demonstra que as sanções podem ser instrumentos para ajudar o povo guineense a ter a sua expressão respeitada.
DW África: Tanto a CEDEAO como a União Africana não gozam de grande credibilidade quando o assunto é a crise guineense. Acredita-se que o ex-presidente Sissoco Embaló tem a simpatia das lideranças dessas organizações. Vale a pena insistir em ter a CEDEAO como mediadora da crise guineense?
SJ: Não podemos abandonar um espaço em que há interesses que influenciam a política interna da Guiné-Bissau. Podemos ter uma opinião contrária sobre o que é a CEDEAO, e temos. O seu funcionamento e as suas atuações nas crises cíclicas na Guiné-Bissau demonstram a sua fragilidade de intervenção e até a sua cumplicidade com o regime, deposto cerimonialmente, de Umaro Sissoco Embaló. Porque enquanto o ex-Presidente instituía uma ditadura na Guiné-Bissau, a CEDEAO teve a coragem de o escolher para ser presidente da organização. Ao mesmo tempo que Macky Sall, enquanto Presidente da União Africana, o ajudava a fortalecer essa ditadura no quadro africano e no quadro internacional. Temos noção disto, mas a Guiné-Bissau, enquanto Estado-membro destas organizações, também tem de disputar os mesmos espaços no sentido de fazer valer a vontade popular e a ordem constitucional e democrática do país. Que são valores que as próprias organizações dizem defender.
DW África: A Guiné-Bissau parece ter entrado num beco sem saída. Como é que olha para o seu país neste momento?
SJ: Não haverá nenhum beco sem saída para a Guiné-Bissau e para nenhum povo que se recuse a manter-se em silêncio. Apesar de haver uma ditadura feroz, continuamos a resistir e a lutar pelo retorno à normalidade constitucional, que é o que acabará por acontecer, porque a própria história da Guiné-Bissau demonstra que nenhum regime que não tenha apoio popular persistiu.
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