A crise de combustíveis terá um impacto muito grande a nível social e económico. A afirmação é do economista Afonso Gomes, em entrevista exclusiva ao jornal Última Hora.
O economista é de opinião que a crise de combustíveis criará um impacto social enorme, tendo em conta que, a falta de gasóleo ou de gasolina diminuirá a mobilidade e, com isso, não haverá produção.
“A falta de gasóleo ou de gasolina vai diminuir a mobilidade e, consequentemente, não haverá produção. Não havendo produção, diminuirá o rendimento das famílias, facto que vai afetar diretamente o sustento de cada família. De seguida, devido à baixa atividade, teremos o abaixamento das receitas. Ou seja, o Estado não terá de onde obter receitas, e, em consequência, diminuirá a sua capacidade de investir nas áreas fundamentais. Áreas como educação, saúde, proteção do meio ambiente e segurança nacional”, descreveu Afonso Gomes.
Segundo o economista, a escassez de combustíveis pode levar as empresas que atuam no setor à especulação de preços, facto que, segundo ele, pode ter influência negativa na vida de todos.
Questionado sobre o que o Governo pode fazer neste momento, Afonso Gomes respondeu que pouco ou nada pode ser feito, tendo em conta que a crise é mundial. “Existe sempre a tentativa de o Governo subvencionar, para assim manter o preço anterior ou atual. No entanto, isso também provoca outro problema. Será necessário retirar investimentos de setores estratégicos para beneficiar operadores económicos da área dos combustíveis. Nos Estados com as economias mais desenvolvidas, é possível tal prática para o bem de todos, mas aqui não estamos perante um Estado com meios para isso”, sublinhou.
Gomes acrescentou que o Governo deve ajustar as suas políticas, tendo em conta que os operadores vão aumentar o preço dos combustíveis, o que terá impacto até nas pessoas que não possuem viaturas, refletindo-se também no preço dos produtos de primeira necessidade.
Face ao problema, o economista recomenda a racionalização, devido à escassez de meios.
Confrontado com o facto de o Governo cabo-verdiano garantir o abastecimento durante seis meses, Afonso Gomes afirmou que não se pode comparar os casos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. “Cabo Verde é um Estado insular com maior facilidade de navegação. No nosso caso, temos várias deficiências no porto, desde a atracagem de navios até problemas de operacionalidade. Todos os armadores que passam pelo nosso porto enfrentam custos elevados, e tudo isso reflete-se no preço dos combustíveis. Somos um país que não pode comparar-se com outros. Aliás, não sabemos como o petróleo chega a Cabo Verde nem qual é o custo para lá chegar, mas sabemos que o nosso serviço portuário não é eficaz e é muito limitado. A dragagem foi feita recentemente, pelo que são realidades incomparáveis”, explicou.
O economista salientou ainda que os operadores nacionais têm o Senegal como referência.
“O Senegal é um país com acesso a uma plataforma onde são determinados os preços dos combustíveis. Nós não temos acesso a esse mecanismo e dependemos da importação por via marítima. O nosso caso é extremamente difícil, pelo que não se pode comparar com outros países”, disse.
Gomes chamou a atenção para a necessidade de medidas com vista a pôr fim à guerra no Médio Oriente, de forma a permitir a passagem de navios no estreito de Ormuz, alertando que a situação poderá agravar-se. “Dentro de algum tempo, já não estaremos a falar apenas do aumento do preço dos combustíveis, mas também do aumento do preço de todos os produtos que compõem o cabaz alimentar, devido ao aumento dos custos de transporte. A estrutura de custos aumentará em todos os níveis”, alertou.
O economista frisou que, caso a crise de combustíveis persista, terá um impacto negativo na campanha de comercialização da castanha de caju. “Estamos no período de comercialização da castanha de caju, que exige muita mobilidade em termos de transporte e exportação. Isso terá reflexos no valor das exportações e poderá contribuir para a baixa do preço pago ao produtor”, concluiu.
De referir que, nos últimos dias, Bissau registou longas filas nas bombas de abastecimento devido à rutura de gasóleo. A situação foi normalizada na segunda-feira, mas poderá voltar a ocorrer caso não sejam tomadas medidas eficazes.
Iaia Sama



