O Primeiro-ministro e ministro das Finanças de Transição da Guiné-Bissau, disse numa entrevista ao Jornal senegalês (Dakar Times) que a Guiné-Bissau está empenhada em aprofundar as reformas estruturais, melhorar continuamente o ambiente de investimento, reforçar a transparência na gestão pública e consolidar as bases de uma governação democrática forte e credível. Todas essas reformas, segundo Ilídio Vieira Té reforçam a sua convicção de que, a Guiné-Bissau pode afirmar-se como espaço de oprtunidades para o investimento. Na entrevista, o Primeiro-ministro assegurou que, as novas autoridades assumiram como prioridade a reconstrução institucional do Estado e o reforço da estabilidade política. Entre as principais reformas em curso destacam-se: o reforço do Estado de direito; a modernização da administração pública; a reforma do sistema judicial e a promoção de maior transparência na gestão pública. Disse que a pertença à UEMOA garante ao País acesso a um conjunto de mecanismos económicos e financeiros fundamentais e que já foi definida uma data para a realização das eleições.
Dakar Times (DT) – Senhor Primeiro-Ministro, agradecemos por nos conceder esta entrevista em terras da Guiné-Bissau. A nossa primeira pergunta diz respeito à situação das finanças públicas do país. Como se encontram actualmente as finanças da Guiné-Bissau?
Ilídio Vieira Té (IVT) – As finanças públicas da Guiné-Bissau encontram-se actualmente num processo de estabilização e reorganização progressiva. O Governo herdou uma situação marcada por fortes constrangimentos estruturais, nomeadamente um elevado nível de pressões orçamentais, fragilidades na mobilização das receitas internas e uma dependência significativa da conjuntura internacional, em particular da evolução do sector da castanha de caju, que continua a desempenhar um papel central na nossa economia.
Apesar desses desafios, o Governo tem vindo a implementar medidas firmes de consolidação orçamental, melhoria da gestão das receitas públicas e reforço da transparência na administração das finanças do Estado. O nosso objetivo central é garantir a sustentabilidade das finanças públicas e criar as bases para um crescimento económico mais inclusivo e duradouro.
Gostaria igualmente de sublinhar que acabámos de concluir mais uma missão de avaliação com o Fundo Monetário Internacional, no quadro do programa que mantemos com essa instituição. Essa missão permitiu avaliar positivamente a 9.ª e a 10.ª revisões do programa, o que constitui um sinal encorajador do reconhecimento internacional dos esforços que o Governo da Guiné-Bissau tem vindo a realizar no domínio da disciplina macroeconómica, da gestão orçamental e das reformas estruturais necessárias para fortalecer a economia nacional.
DT – O país beneficiou de ajudas orçamentais externas para financiar os seus projectos?
IVT – Sim. A Guiné-Bissau beneficia do apoio de diversos parceiros internacionais que têm acompanhado os esforços do Governo na estabilização macroeconómica e no reforço das políticas públicas. Esses apoios assumem diversas formas, incluindo assistência técnica, financiamento de projectos estruturantes e apoio orçamental em determinados momentos.
Importa sublinhar que esses apoios são enquadrados por mecanismos rigorosos de acompanhamento e destinam-se essencialmente a reforçar a capacidade do Estado em investir em sectores prioritários, como infraestruturas, educação, saúde e desenvolvimento rural.

DT – Quais são as iniciativas desenvolvidas com parceiros como o FMI, o Banco Mundial, a União Europeia, os Estados Unidos, entre outros?
IVT – A cooperação com os nossos parceiros multilaterais e bilaterais é fundamental para o processo de estabilização macroeconómica, transformação estrutural e desenvolvimento sustentável da Guiné-Bissau.
Com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Guiné-Bissau mantém um programa de apoio às políticas económicas que tem permitido reforçar a disciplina macroeconómica, melhorar a gestão das finanças públicas, modernizar a administração fiscal e fortalecer os mecanismos de transparência e controlo orçamental. As avaliações recentes do programa, nomeadamente a 9.ª e a 10.ª revisão, foram concluídas com resultados positivos, reconhecendo os progressos realizados pelo Governo.
Com o Banco Mundial, temos em curso vários programas estruturantes destinados a apoiar o desenvolvimento económico e social do país. Entre eles destacam-se projectos voltados para o reforço das infraestruturas, a melhoria da governação económica, o desenvolvimento do sector agrícola, a promoção da energia e do acesso à electricidade, bem como programas de apoio ao capital humano, incluindo educação e protecção social.
A União Europeia tem sido igualmente um parceiro estratégico de primeira linha. A sua cooperação com a Guiné-Bissau inclui projectos importantes nos domínios da boa governação, apoio orçamental, segurança alimentar, desenvolvimento rural, pescas, formação institucional e reforço das capacidades administrativas do Estado. Vários programas financiados pela União Europeia contribuíram também para o fortalecimento da sociedade civil e para a consolidação das instituições democráticas.
No que diz respeito aos Estados Unidos da América, a cooperação tem incidido sobretudo em áreas como o reforço das instituições democráticas, o apoio à estabilidade política, programas de saúde pública, segurança regional e promoção de oportunidades económicas, incluindo iniciativas destinadas a estimular o investimento privado e o empreendedorismo.
Para além destes parceiros, a Guiné-Bissau trabalha igualmente com diversas agências das Nações Unidas, bancos regionais de desenvolvimento e outros parceiros bilaterais, no quadro de projectos que abrangem áreas como infraestruturas, energia, desenvolvimento rural, gestão sustentável dos recursos naturais, educação, saúde e capacitação institucional.
O nosso objectivo é garantir que todos estes programas e projectos contribuam de forma efectiva para acelerar o crescimento económico, reduzir a pobreza e criar oportunidades concretas para a população guineense, reforçando ao mesmo tempo a credibilidade e a sustentabilidade das políticas públicas do país.
DT – A Guiné-Bissau beneficia de apoio financeiro de países como a Rússia, os Emirados Árabes Unidos, a China e outros países árabes?
IVT – A política externa da Guiné-Bissau assenta numa diplomacia aberta, pragmática e orientada para parcerias mutuamente benéficas, com o objectivo de reforçar a cooperação internacional e mobilizar recursos para o desenvolvimento do país.
Neste quadro, mantemos relações de cooperação com vários países, incluindo a Federação Russa, a República Popular da China, os Emirados Árabes Unidos e diversos países do mundo árabe, em áreas como investimento, desenvolvimento de infraestruturas, formação técnica, cooperação económica e apoio institucional.
O nosso objectivo estratégico é diversificar as parcerias internacionais, criando novas oportunidades de investimento e mobilizando recursos que possam contribuir para a modernização da economia nacional, para o desenvolvimento das infraestruturas e para a criação de oportunidades concretas para a população guineense.
Importa igualmente reconhecer que a imagem internacional da Guiné-Bissau conheceu uma evolução significativa nos últimos anos. Durante muito tempo, o país foi frequentemente associado a percepções de instabilidade política, fragilidade institucional e a narrativas relacionadas com o narcotráfico. Hoje, contudo, observa-se uma mudança progressiva dessa percepção.
Nesse sentido, é justo sublinhar o importante trabalho político e diplomático desenvolvido por Sua Excelência, o ex-Presidente da República, General Úmaro Sissoco Embaló, que contribuiu para reposicionar a Guiné-Bissau no plano internacional, reforçar a confiança dos parceiros e abrir novas perspectivas de cooperação económica e diplomática.
Esta nova imagem do país, constitui hoje um factor decisivo para a atracção de investimentos externos. Já se começam a observar sinais positivos de interesse por parte de vários parceiros internacionais, com iniciativas que se encontram em fase de negociação, implementação ou consolidação, o que reforça a nossa convicção de que a Guiné-Bissau pode afirmar-se progressivamente como um espaço de oportunidades para o investimento e para o desenvolvimento económico sustentável.
O nosso objectivo é diversificar as parcerias internacionais, atraindo investimentos que contribuam para a modernização da economia e para a criação de oportunidades para a população.

“Reformas políticas”
DT – No plano político, quais são as reformas iniciadas pelas novas autoridades?
IVT – As novas autoridades assumiram como prioridade a reconstrução institucional do Estado e o reforço da estabilidade política. Entre as principais reformas em curso destacam-se: o reforço do Estado de direito; a modernização da administração pública; a reforma do sistema judicial e a promoção de maior transparência na gestão pública.
Essas reformas visam consolidar as bases de uma governação mais eficiente, democrática e orientada para o desenvolvimento.
DT – Podemos esperar uma reforma da Constituição? Se sim, em que aspectos poderá incidir?
IVT – Importa esclarecer que a Guiné-Bissau já deu passos importantes nesse domínio. O Conselho Nacional de Transição, órgão legislativo criado com base num amplo consenso político nacional, procedeu recentemente a uma revisão significativa da Constituição da República.
Essa revisão teve como principal objectivo corrigir ambiguidades e lacunas interpretativas que, ao longo dos anos, estiveram na origem de vários conflitos institucionais e crises políticas no país, sobretudo no que diz respeito à definição e ao equilíbrio de competências entre os diferentes órgãos de soberania.
O processo foi conduzido com base no princípio do consenso político e da responsabilidade institucional, procurando reforçar a estabilidade do sistema político e melhorar o funcionamento das instituições republicanas.
Naturalmente, como acontece em qualquer democracia, a Constituição continua a ser um instrumento vivo, que pode evoluir ao longo do tempo. Contudo, qualquer futura reforma deverá sempre assentar em um amplo diálogo nacional, envolvendo as forças políticas, as instituições do Estado e a sociedade civil, garantindo assim que as mudanças reflictam verdadeiramente o interesse colectivo da nação guineense.
DT – A CEDEAO felicitou a Guiné-Bissau no seu comunicado de 30 de janeiro de 2026. Como estão actualmente as relações entre o poder e a oposição após a formação do Governo de transição inclusivo?
IVT – O Governo tem procurado promover um clima de diálogo político construtivo e de inclusão institucional entre as diferentes forças políticas do país, com o objectivo de consolidar a estabilidade e criar condições para uma transição política pacífica.
Neste contexto, importa recordar que a Guiné-Bissau beneficiou igualmente de uma Missão de Alto Nível da CEDEAO, conduzida por Suas Excelências os Presidentes Julius Maada Bio, da Serra Leoa, e Bassirou Diomaye Faye, do Senegal, cuja deslocação a Bissau teve como objectivo apoiar os esforços de estabilização política e incentivar uma solução inclusiva para a governação do país.
Na sequência dessas consultas e recomendações, o Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança e da Ordem Pública, em estreita concertação com a CEDEAO, tomou a iniciativa de convidar as alas dos partidos políticos associadas aos senhores Domingos Simões Pereira e Fernando Dias a integrarem o Governo Inclusivo de Transição.
No quadro dessa proposta, foi oferecida a cada uma dessas alas a possibilidade de indicar três membros para integrar o Governo, bem como cinco representantes para o Conselho Nacional de Transição, órgão legislativo criado no âmbito do processo de transição.
Este convite foi formalizado através de uma carta assinada pelo Presidente da República de Transição, num gesto claro de abertura política e de procura de consensos nacionais. Contudo, em vez de responderem formalmente a essa iniciativa institucional, os referidos responsáveis optaram por manifestar a sua recusa através de conferências de imprensa e dos seus canais de comunicação nas redes sociais.
Apesar dessa recusa, o Governo continua convicto de que a formação de um Governo de Transição Inclusivo constitui um passo importante para a normalização institucional e para a consolidação da estabilidade política no país.
Naturalmente, existem divergências no debate político, o que é próprio de qualquer democracia. No entanto, acreditamos que o objectivo comum de todos os atores políticos deve ser sempre a defesa do interesse nacional, a preservação da paz social e o reforço das instituições democráticas da Guiné-Bissau.
DT – Alguns opositores foram detidos, posteriormente libertados e colocados em residência vigiada. O que lhes é imputado?
IVT – As situações a que se refere encontram-se no âmbito de processos conduzidos pelas autoridades judiciais competentes. Num Estado de direito, é fundamental respeitar a separação de poderes, razão pela qual o Governo não interfere nos processos judiciais em curso. O que podemos assegurar é que todas as decisões devem respeitar a lei e as garantias fundamentais dos cidadãos.
DT – Pode-se esperar um julgamento justo para esses atores políticos?
IVT – Sim. O compromisso das autoridades é garantir que todos os processos judiciais decorram no respeito absoluto pelas normas do Estado de direito, assegurando o direito à defesa, o princípio da presunção de inocência e o acesso a um julgamento justo e transparente.
O fortalecimento da independência do poder judicial constitui um dos pilares fundamentais do processo de reforma institucional em curso na Guiné-Bissau. A credibilidade das instituições de justiça é essencial para a consolidação da democracia e para a estabilidade política e social do país.
Sem uma justiça credível, independente e eficiente, torna-se impossível aspirar a um desenvolvimento económico sustentável, atrair investimento estrangeiro, promover a coesão social e consolidar uma democracia plena e participativa. A confiança dos cidadãos nas instituições do Estado depende directamente da capacidade do sistema judicial em atuar com rigor, imparcialidade e transparência.
Nesse sentido, as autoridades continuam empenhadas em reforçar as condições materiais, técnicas e institucionais do sistema judicial, promovendo a formação dos magistrados, o reforço da autonomia dos tribunais e a melhoria do acesso dos cidadãos à justiça.
O objectivo estratégico é assegurar que a justiça seja não apenas um instrumento de resolução de conflitos, mas também um pilar de desenvolvimento nacional, de segurança jurídica e de confiança dos investidores e parceiros internacionais na Guiné-Bissau.

DT – É possível organizar um diálogo nacional entre o poder, a oposição, a sociedade civil e as forças vivas da nação?
IVT- O diálogo nacional é sempre um instrumento fundamental para a consolidação da paz, da estabilidade política e da coesão nacional.
O Governo mantém uma postura de abertura em relação a todas as iniciativas que possam promover um diálogo inclusivo entre os diferentes atores políticos e sociais, incluindo os partidos políticos, a sociedade civil e as demais forças vivas da nação, desde que esse processo seja conduzido num espírito de responsabilidade, respeito institucional e compromisso com o interesse nacional.
Importa também assinalar uma evolução que consideramos positiva no atual contexto político. As forças da oposição reconheceram, num memorando que elaboraram e dirigiram ao Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança e da Ordem Pública, bem como à CEDEAO, União Africana, CPLP, União Europeia e às Nações Unidas, o papel e a legitimidade desse órgão no actual processo de estabilização institucional.
Este reconhecimento constitui um passo significativo para a criação de um ambiente político mais propício ao entendimento, e permite-nos encarar com alguma esperança a possibilidade de uma solução política baseada no diálogo, no respeito mútuo e na defesa dos superiores interesses da Guiné-Bissau.
O nosso compromisso continua a ser o de trabalhar para que o país encontre uma saída política estável, inclusiva e duradoura, capaz de reforçar as instituições e garantir a paz social.
“Liberdade de imprensa”
DT – Existe uma imprensa livre na Guiné-Bissau?
IVT – A Guiné-Bissau possui uma tradição de pluralismo no espaço mediático, com a existência de diversos órgãos de comunicação social públicos e privados, o que constitui um elemento essencial para o funcionamento de uma sociedade democrática.
Naturalmente, existem ainda desafios estruturais que precisam de ser progressivamente superados. O Governo reafirma o seu compromisso com a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e o respeito pelo papel fundamental da comunicação social na consolidação da democracia.
Um dos principais desafios do setor prende-se com as questões de formação, capacitação técnica e fortalecimento institucional do jornalismo nacional. A fragilidade estrutural do setor mediático, associada às dificuldades económicas e institucionais do país, cria por vezes condições que podem comprometer a plena autonomia editorial e profissional.
Em alguns casos, a insuficiente formação profissional e as limitações socioeconómicas podem tornar alguns profissionais mais vulneráveis à influência de interesses políticos, económicos ou de grupos de pressão. Esta situação pode, em certos momentos, levar a desvios relativamente aos princípios fundamentais da ética, da deontologia e da responsabilidade social do jornalismo.
Por isso, as autoridades consideram que o reforço da imprensa livre na Guiné-Bissau deve passar, prioritariamente, por políticas públicas de apoio à formação profissional dos jornalistas, à melhoria das condições de trabalho no sector e ao fortalecimento das instituições reguladoras da comunicação social, de modo a garantir uma imprensa cada vez mais profissional, responsável e independente.
O objectivo do Governo é contribuir para que a comunicação social desempenhe plenamente o seu papel como instrumento de informação, fiscalização do poder e promoção do debate público democrático, sem deixar de garantir o respeito pelos princípios éticos e profissionais que devem orientar o exercício do jornalismo.
DT – Quais são as medidas previstas para reforçar a liberdade de imprensa?
IVT – Entre as medidas previstas pelo Governo para reforçar a liberdade de imprensa e a qualidade do espaço mediático na Guiné-Bissau destacam-se: o reforço e a modernização do quadro legal da comunicação social, garantindo maior segurança jurídica para o exercício da actividade jornalística; o apoio à profissionalização e capacitação técnica dos profissionais do setor; o fortalecimento das condições institucionais que assegurem maior independência editorial e maior pluralismo informativo e o incentivo à melhoria das condições económicas e sociais de funcionamento dos órgãos de comunicação social.
A resposta anteriormente apresentada é já elucidativa sobre a abordagem estratégica do Governo. Contudo, a aposta principal das autoridades reside na formação, capacitação e valorização profissional contínua dos jornalistas e técnicos da comunicação social, visando elevar o setor aos padrões mínimos internacionais de qualidade, rigor e responsabilidade informativa.
Neste sentido, serão promovidos programas de formação, parcerias com instituições nacionais e internacionais, e iniciativas de modernização tecnológica do sector mediático.
O objectivo central é contribuir para a construção de uma imprensa responsável, plural, ética e profissional, capaz de cumprir plenamente a sua função social enquanto pilar essencial da democracia, da transparência e do desenvolvimento nacional.
“Juventude guineense”
DT – Qual é a política do Governo para apoiar a juventude?
IVT – A juventude constitui uma das maiores prioridades estratégicas das políticas públicas do Governo da Guiné-Bissau, tendo em conta o peso demográfico da população jovem e o seu papel decisivo no desenvolvimento económico, social e político do país.
O Governo está a implementar e a reforçar programas e políticas públicas orientadas para:
- Promoção do emprego jovem, através de programas de inserção no mercado de trabalho, incentivo ao sector privado e apoio a iniciativas de criação de emprego;
- Fomento do empreendedorismo juvenil, com apoio ao acesso ao financiamento, capacitação em gestão empresarial e incentivo à criação de pequenas e médias empresas;
- Reforço da formação profissional e técnica, alinhando a oferta formativa às necessidades reais do mercado de trabalho e aos sectores estratégicos da economia nacional;
- Melhoria do acesso à educação de qualidade, promovendo a inclusão escolar, a permanência no sistema educativo e a modernização do ensino;
- Promoção da inclusão económica e social da juventude, através de programas de desenvolvimento comunitário e oportunidades de participação cívica.
Paralelamente, o Governo tem vindo a trabalhar no fortalecimento de parcerias com organizações internacionais, sector privado e sociedade civil, visando ampliar as oportunidades para os jovens guineenses.
Acreditamos firmemente que, investir na juventude é investir no presente e no futuro da Guiné-Bissau, pois os jovens são um dos principais motores da inovação, da transformação social e do desenvolvimento sustentável do país. O objectivo é garantir que a juventude tenha condições efectivas para participar activamente na construção de uma Guiné-Bissau mais próspera, estável e inclusiva.
DT – Qual é o papel da juventude na construção de uma Guiné-Bissau de paz?
IVT – A juventude desempenha um papel essencial na consolidação da paz, da estabilidade política e do desenvolvimento sustentável da Guiné-Bissau. Sendo o grupo demográfico maioritário do país, os jovens representam um enorme potencial estratégico para a transformação social, económica e cultural.
A juventude constitui uma verdadeira força de inovação, renovação e dinamização da sociedade. Por isso, deve ser cada vez mais incentivada a participar activamente na vida cívica, económica, social e política, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa, coesa e próspera.
Contudo, é um facto que, ao longo do tempo, a Guiné-Bissau não conseguiu ainda desenvolver políticas públicas suficientemente estruturadas para aproveitar plenamente o potencial produtivo, intelectual e criativo da sua juventude. As limitações históricas ao nível da educação, formação profissional, acesso ao emprego e oportunidades económicas têm restringido a plena mobilização dessa força estratégica para o desenvolvimento nacional.
Neste sentido, o Governo tem vindo a reforçar políticas orientadas para a inclusão económica e social da juventude, apostando na formação, no empreendedorismo e na criação de oportunidades de participação activa na governação e no desenvolvimento comunitário.
O objectivo é transformar a juventude num verdadeiro pilar da paz, da estabilidade e do progresso, promovendo uma geração jovem mais qualificada, mais empregada e mais comprometida com a construção de uma Guiné-Bissau pacífica, desenvolvida e socialmente equilibrada.
“Calendário Eleitoral”
DT – Já existe um calendário eleitoral definido?
IVT – Sim. Já existe um esforço concreto de organização do calendário eleitoral, no quadro do reforço da estabilidade institucional e do respeito pelos princípios democráticos. As autoridades competentes estão a trabalhar para garantir que o processo eleitoral seja realizado em condições de transparência, credibilidade e segurança institucional, conforme a legislação em vigor e as boas práticas eleitorais internacionais.
Já foi definida uma data para a realização das eleições, estando em curso o conjunto de preparativos técnicos e administrativos necessários para a sua boa organização. Neste contexto, foi igualmente assegurada a regularização institucional da Comissão Nacional de Eleições (CNE), nomeadamente através da eleição da sua liderança, o que reforça a capacidade operacional do órgão responsável pela supervisão do processo eleitoral.
Paralelamente, foi decidido proceder à actualização dos cadernos eleitorais, de forma a garantir maior rigor e inclusão no processo de recenseamento. Serão abrangidos os cidadãos que atingiram a idade eleitoral e aqueles que ainda não se recensearam, assegurando assim que todos os eleitores elegíveis possam exercer plenamente o seu direito de voto.
O objectivo destas medidas é garantir que o processo eleitoral decorra num ambiente de legalidade, transparência e confiança pública, contribuindo para a consolidação da democracia e da estabilidade política na Guiné-Bissau.
DT – Está previsto um referendo no âmbito das reformas?
IVT – A eventual realização de um referendo no âmbito das reformas institucionais dependerá da evolução do processo político, do consenso nacional entre as forças políticas e da avaliação das autoridades competentes quanto à sua necessidade e oportunidade constitucional.
O Governo considera que, qualquer decisão desta natureza, deve resultar de um amplo diálogo nacional e de uma convergência política alargada, garantindo que as reformas reflictam a vontade e o interesse geral da população guineense.
Com a aproximação do calendário eleitoral, as autoridades irão acompanhar atentamente a evolução da situação política e institucional, privilegiando a estabilidade e a previsibilidade do processo democrático. Assim, a eventual realização de um referendo será avaliada à luz do contexto político, jurídico e social, sempre com o objectivo de preservar a paz, a estabilidade institucional e o funcionamento regular da democracia na Guiné-Bissau.
“Cooperação”
DT – A Guiné-Bissau beneficia do apoio da UEMOA no âmbito da sua política financeira?
IVT – Sim. A Guiné-Bissau, enquanto membro da União Económica e Monetária do Oeste Africano (UEMOA), beneficia de um quadro institucional e financeiro regional que tem contribuído de forma decisiva para a estabilidade monetária, a disciplina macroeconómica e a integração económica regional.
A pertença à UEMOA garante à Guiné-Bissau o acesso a um conjunto de mecanismos económicos e financeiros fundamentais, nomeadamente a utilização de uma moeda comum estável, o que tem permitido controlar a inflação e facilitar as transações comerciais com os países da região. Este enquadramento monetário tem sido um fator importante para a previsibilidade económica e para a confiança dos investidores.
No plano da política financeira, a Guiné-Bissau tem beneficiado de mecanismos de acompanhamento e apoio técnico no domínio da gestão das finanças públicas, harmonização das políticas fiscais e fortalecimento das instituições económicas. Estes instrumentos têm permitido ao país avançar na melhoria da mobilização das receitas internas, na racionalização da despesa pública e no reforço da transparência orçamental.
No domínio da integração económica regional, a participação na UEMOA tem facilitado o comércio intracomunitário, o acesso a mercados regionais e a promoção de investimentos transfronteiriços, contribuindo para a dinamização do setor privado e para a criação de oportunidades económicas.
Dados macroeconómicos recentes indicam progressos na estabilização das principais variáveis económicas, nomeadamente na contenção da inflação e na melhoria gradual dos indicadores de disciplina orçamental, embora persistam desafios estruturais relacionados com a diversificação da economia e a redução da dependência de produtos de exportação primária.
Essa pertença constitui, portanto, um factor estratégico de credibilidade internacional e de estabilidade económica, reforçando a confiança dos parceiros de desenvolvimento e criando melhores condições para o crescimento económico sustentável da Guiné-Bissau.
DT – Como são as relações entre Dakar e Bissau?
IVT – As relações entre a Guiné-Bissau e o Senegal são excelentes, estratégicas e historicamente fraternas, assentes em fortes laços culturais, históricos, sociais e humanos. Os dois países partilham uma fronteira terrestre e marítima comum, o que reforça a necessidade de uma cooperação permanente em matéria de segurança, economia, comércio e gestão integrada dos desafios transfronteiriços.
Do ponto de vista histórico, é importante sublinhar que o Senegal deu uma contribuição significativa ao processo de luta de libertação nacional da Guiné-Bissau, tendo desempenhado um papel de apoio político e diplomático que reforçou os laços de solidariedade entre os dois povos.
No contexto atual, o Senegal tem desempenhado um papel diplomático extremamente relevante na procura de uma solução política justa e estável para a situação da Guiné-Bissau, tanto no quadro da CEDEAO como no âmbito da União Africana. As autoridades senegalesas têm contribuído activamente para os esforços de mediação, diálogo político e busca de soluções consensuais que permitam superar os efeitos da crise política e reforçar a estabilidade institucional no país.
A Guiné-Bissau reconhece e valoriza esse envolvimento construtivo, considerando-o um elemento importante para a promoção da paz, da segurança regional e da estabilidade democrática no espaço da África Ocidental.
As relações entre Bissau e Dakar continuam, assim, a ser orientadas por princípios de boa vizinhança, cooperação estratégica, solidariedade histórica e convergência de interesses no domínio da segurança e do desenvolvimento económico e social.
DT – Observámos várias deslocações do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Senegal, Cheikh Niang, e do Ministro das Forças Armadas, General Biram Diop. Qual foi o papel deles na resolução da crise?
IVT – O Senegal tem desempenhado um papel diplomático construtivo e estratégico no acompanhamento da situação política na Guiné-Bissau, actuando em estreita articulação com os mecanismos regionais, particularmente a CEDEAO e outros parceiros africanos.
As deslocações a Bissau de responsáveis senegaleses, nomeadamente do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cheikh Niang, e do Ministro das Forças Armadas, General Biram Diop, inserem-se num quadro de diplomacia preventiva e de mediação política, visando contribuir para a estabilização institucional, a promoção do diálogo político e a procura de soluções consensuais para a superação da crise.
Estas iniciativas reforçam a tradição de cooperação entre os dois Estados e demonstram o compromisso do Senegal com a paz, a segurança regional e a estabilidade democrática no espaço da África Ocidental.
O envolvimento das autoridades senegalesas tem sido igualmente importante no apoio aos esforços da comunidade internacional para garantir uma transição política pacífica, respeitando a soberania da Guiné-Bissau e promovendo soluções políticas duradouras que correspondam aos superiores interesses do povo guineense.
DT – Que mensagem gostaria de dirigir aos amigos da Guiné-Bissau no mundo, especialmente aos parceiros de desenvolvimento?
IVT – A Guiné-Bissau reafirma o seu compromisso firme com um caminho de estabilidade política, consolidação das reformas institucionais e promoção de um desenvolvimento económico sustentável e inclusivo. O país continua determinado a reforçar o Estado de direito, fortalecer as instituições públicas e criar condições mais favoráveis ao crescimento económico e ao progresso social.
Aos nossos parceiros internacionais, queremos transmitir uma mensagem clara de confiança, abertura e determinação reformista. A Guiné-Bissau está empenhada em aprofundar as reformas estruturais, melhorar continuamente o ambiente de investimento, reforçar a transparência na gestão pública e consolidar as bases de uma governação democrática forte e credível.
Reafirmamos igualmente a importância da cooperação internacional para o sucesso destes esforços. Contamos com o apoio contínuo dos nossos parceiros de desenvolvimento, organizações multilaterais e países amigos, no acompanhamento das reformas e no apoio aos projectos estruturantes que visam melhorar as condições de vida da população guineense.
O nosso objectivo comum deve ser a construção de um futuro de paz duradoura, prosperidade económica e progresso social, permitindo que a Guiné-Bissau consolide o seu lugar como um parceiro estável, confiável e comprometido com os valores da democracia e do desenvolvimento sustentável.



